Doenças Urológicas | SÍNDROME DA BEXIGA DOLOROSA / CISTITE INTERSTICIAL

SÍNDROME DA BEXIGA DOLOROSA / CISTITE INTERSTICIAL

A síndrome da bexiga dolorosa/Cistite intersticial (SBD/CI) é uma condição clínica de difícil definição, caracterizada por dor pélvica crônica (superior a seis meses), acompanhada por, pelo menos, mais um sintoma urinário: urgência (necessidade de ir com rapidez urinar inesperadamente) ou frequência miccional (necessidade de urinar durante o dia e ou a noite mais vezes que o normal). Geralmente a dor ou desconforto estão relacionados com o enchimento vesical e, aliviam após o esvaziamento vesical. A urgência está relacionada à dor, e não por medo de perder urina. Noventa e sete por cento dos pacientes relatam piora dos sintomas após a ingestão de certos tipos de alimentos ou bebidas, porém não há alimentos específicos para todos. Devem-se excluir outras patologias, como endometriose, cálculos urinários, infecção urinária, câncer, bexiga hiperativa, entre outros. A síndrome da bexiga dolorosa abrange um maior número de pacientes, que engloba aqueles com cistite intersticial.

A prevalência dessa doença varia de 0,3% a até 11%. Como não existe uma padronização no diagnóstico, diferentes critérios foram utilizados nos estudos epidemiológicos e esta deve ser a causa da diferença das estimativas de prevalência. Cerca de 80 a 90% dos pacientes afetados são mulheres. Existe forte associação com fibromialgia, síndrome do intestino irritável, endometriose, alergias, doenças autoimunes e depressão. Estudos sobre dor crônica mostram forte associação entre sintomas depressivos e experiência da dor, particularmente a dor pélvica crônica.

A causa ainda é desconhecida, mas supõe-se que exista uma agressão inicial ao urotélio (mucosa da bexiga) que leva a uma disfunção urotelial (alteração da camada de glicosaminoglicano), permitindo a entrada de íons potássio nos tecidos, levando à ativação das fibras C (inervação de dor) e dos mastócitos, com liberação de histamina e outras citocinas, causando lesão epitelial.

A dificuldade de diagnosticar na prática clínica é motivo de pesquisas para encontrar um marcador para esta condição. Até o momento, não existe um teste ou exame com achado específico para a doença.

O exame pélvico pode evidenciar outra doença, mas que pode coexistir sem ser necessariamente a causa, levando algumas vezes a perder o foco no diagnostico principal e consequentemente não fazer o tratamento apropriado.

A urodinâmica pode ajudar no diagnóstico, mas não tem nenhum achado específico. Na cistoscopia pode ser evidenciadas as úlceras de Hunner, e as glomerulações após a hidrodistensão vesical sob anestesia. Ambos os achados estão presentes em pacientes assintomáticos e podem estar ausentes em pacientes sintomáticos, e, a presença de qualquer um deles não mostrou ter qualquer valor prognóstico. A biópsia da bexiga também não tem um achado especifico, mas é utilizada para afastar outras doenças.

O tratamento pode ser dividido em primeira linha: medicamentos via oral (podem ser associados); segunda linha: medicamentos intravesicais; terceira linha: reservada aos casos refratários, com neuromodulação por estimulação do nervo tibial posterior, primeiramente e por neuromodulação sacral, se não houver resposta à primeira. Os pacientes com essa doença que tem um caráter crônico sem um resultado imediato do tratamento muitas vezes não são compreendidos pelo médico assistente e frequentemente passam por avaliação de vários profissionais na esperança de encontrar um tratamento eficaz para esse problema que tem uma importante interferência na qualidade de vida.

Fonte: Manual da Sociedade Brasileira de Urologia